Mendoza – Viña del Mar

 

Esta viagem começou da forma mais incrível possível, numa mesa de restaurante em Miami. Eu e Graciela estávamos recebendo este queridíssimo casal de primos da Argentina, Daniel e Silvina, e rolou o papo sobre motos: as aventuras pelo Brasil, as viagens pelos Estados Unidos, os passeios pela Argentina. Aí o Daniel disse: “vocês têm que vir um dia desses fazer essa viagem de Mendoza a Viña, é uma beleza”. E continuou “e nem precisa trazer a moto. A gente arranja uma por lá”. Bom, assim já é demais! Ele pega seu Black Berry, passa um texto pro Marcos na Argentina, que responde no ato: “Esta todo arreglado para la Semana Santa. Ya tengo las motos”.

Embarco no vôo da LAN direto para Santiago, com conexão imediata para Mendoza, levando apenas capacete, jaqueta e tralha de moto. Esse vôo de conexão dura apenas 45 minutos e passa exatamente sobre o caminho que faremos de volta. O resto estava tudo lá, pronto para sair. Vamos direto do aeroporto para encontrar Marcos e sua esposa Amália, donos das motos, e Daniel e Silvina. Marcos é um desses fanáticos por motociclismo. Tem 6 motos, uma oficina completa super arrumada, com piso branco, imaginem, e até um pequeno lava-motos no quintal. Tem também, para convidados, trinta capacetes, jaquetas, roupas de chuva, luvas, enfim, uma loja em casa. 

Tudo pronto, pegamos a estrada. O trajeto é lindo, desde as terras áridas que antecedem a cordilheira, tomadas com plantações de uva, até a cordilheira dos Andes. Mendoza é uma graça de cidade e seu povo muito amável. Sua principal economia, a vinicultura, é moderna a par das melhores do mundo.

Não demora muito para chegarmos às tão esperadas curvas e, em seguida, à pré-cordilheira. A estrada, de uma única pista, tem um trânsito intenso de caminhões pesados, muitos do Brasil levando frutas, muitos do Chile e Argentina transportando produtos agrícolas, e torna-se perigosa devido ao diesel no asfalto. São nessas horas que a experiência conta, já que viajamos meio rápido porque a noite não nos pode pegar na estrada. Caso isso aconteça, é bom estar preparado para o frio. A temperatura começa a cair. Vai de 30 graus em baixo, para zero grau em cima, durante o dia, mas vai ficar negativa à noite.

Ainda do lado argentino, a paisagem começa a mudar. As montanhas começam a nos cercar e passamos a viajar por belíssimos vales rochosos. No desgelo, esses riachos meio secos se tornarão rios caudalosos, com correntes perigosíssimas. Muita gente já perdeu a vida, pegas de surpresa tentando atravessá-los. Seguimos subindo até o parque do Aconcágua, onde fica o pico mais alto das Américas, o mais alto fora da Ásia, com 6962 metros de altitude. Hoje em dia, os motores não têm mais problemas com altitude. Nossas motos têm injeção eletrônica, não há carburador para ajustar. Viajamos com uma BMW GS1200, uma BMW GS650 e uma Honda TransAlps, comercializada só na Europa. No parque, uma parada obrigatória, enquanto se arredonda o traseiro. Viajando com estes tipos de moto, é importante dar uma parada a cada 2 horas, e já estamos na moto há muito mais tempo do que isso.

Visto o parque, seguimos em direção ao Chile. Logo, chega-se à fronteira. Aí, o caos impera. Embora os argentinos e chilenos sejam povos extremamente amáveis, os governos dos dois paises não se entendem muito bem, e a fila para se atravessar a fronteira é de 6 horas devido ao movimento de turistas para o feriado de Sexta-Feira Santa, mas principalmente devido à burocracia. Tem-se que preencher um monte de formulários, apresentar uma pilha de documentos ao relento, numa guarita dessas de guarda noturno. Os policiais federais chilenos enrolam o máximo que podem. Abrem bolsas, malas, valises.

A fila se estende por quilômetros. Não há infraestrutura alguma. Não há banheiros, não há gente vendendo comida, nem água, nem nada. É bom ir preparado. Se ficarmos nessa fila durante esse tempo todo, vai anoitecer e vamos passar um frio danado. Depois de um pequeno debate, decidimos a contragosto furar a fila e seguir pelo acostamento com cara de quem não quer nada. A decisão não nos agrada mas não temos escolha, seguimos em frente. Quando chegarmos à fronteira, vamos ver o que fazer. Os motoristas vão querer nos matar, mas, enfim, fomos em frente. É bom estar de capacete nessa hora para nos esconder. Conseguimos passar.

Passamos a fronteira e as montanhas do lado Chileno continuam lindas. A vista é mais ampla, pois agora estamos descendo. Ali fica a famosa estação de esqui de Portillo, fechada agora no verão. Em alguns dias do inverno essa estrada fica intransitável devido à neve. As curvas ficam mais acentuadas, chamadas de “caracoles”. O cuidado tem que ser redobrado. O trânsito continua intenso, as curvas acentuadas, há óleo e pedriscos na pista, e não há guard-rail. Troca-se de marcha a cada 5 ou 10 segundos, e o sorriso toma conta da minha face. Estou feliz.

Já estamos na estrada há mais de 6 horas e escureceu. O resto do percurso terá que ser feito à noite. Foi bom ter o Marcos puxando a fila, que já fez essa viagem muitas vezes, porque terminada a serra, a estrada começa a ter uma porção de variantes, passa por meio de vilas, vira autoestrada e é preciso estar preparado com moeda local para o pedágio, além de se conhecer o lugar certo para parar, comer alguma coisa e abastecer.

Mais algumas horas de planície e chegamos a Viña del Mar. A cidade é muito bem arrumada e, em algumas partes lembra sul da França. Lá, a vida noturna vai até tarde e não foi difícil encontrar um restaurante aberto à meia noite com mesinhas fora, de frente para o mar, servindo mariscos e peixes excelentes. Quase em qualquer boteco se encontra boa comida. Mas boa comida não era suficiente para nossos anfitriões, que no dia seguinte nos levariam a um restaurante excepcional, com vinho chileno de primeira pra comemorar. Finalmente chegamos ao apartamento alugado para o feriado, com um grande terraço com vista para o Pacífico. Os dias que se seguiram foram de passeios por Viña del Mar e Valparaíso, visitando a casa de Pablo Neruda, hoje um museu.

Como essa vida de boa comida, bons vinhos, bons amigos e paisagem maravilhosa não dura pra sempre, chega a hora de pegar a estrada de volta, num tremendo congestionamento. Gostaria muito de ficar, mas também gostaria de repetir a dose de paisagem deslumbrante, curtir a BMW GS1200, que já esqueci ser emprestada. Ela é uma moto quase que perfeita para esse tipo de viagem, com amplo espaço para bagagem, muito conforto, relação excelente de marchas, torque e autonomia de 300 quilômetros com gasolina comum, embora a tenhamos tratado somente com gasolina especial, que na Argentina tem incríveis 98 octanas, chamada de “Fangio” em homenagem ao grande campeão argentino de Fórmula-1, Juan Manuel Fangio. Talvez devêssemos ter a gasolina Sena no Brasil.

Lembra-se da canção “I left my heart in San Francisco”? Nossos corações ficaram em Mendoza e Viña del Mar. Encontramos amigos verdadeiros, que nos fizeram sentir em casa, amantes do motociclismo como nós. Uma viagem inesquecível para motociclistas de qualquer idade. Não vejo a hora de poder retribuir toda essa aventura e amabilidade quando nossos queridos amigos vierem à Miami.

Em Tempo: Daniel, de uma alma e bondade incomparáveis, amante das motos, iniciador desta viagem e responsável por conhecermos nossos queridos amigos Marcos e Amália, nos deixou em junho de 2012, após perder a batalha contra um câncer devastador, mas continua pressente em nossas viagens e nossos corações.

Fotos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Alojamentos fechados na pré-Cordilheira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Difícil concentrar na estrada com uma paisagem dessas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Silvina, Graciela, Daniel, Marcos e Amália no parque Aconcágua. Eu estou atrás da câmera.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Arredondando o traseiro no parque Aconcágua. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entrada do Parque Aconcágua, já com 2800 metros. A paisagem fica cada vez mais bonita.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Marcos e Amália ultrapassando mais um caminhão na estrada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Lineu e Graciela na tomada de curva dos “caracoles”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Parque Aconcágua, ou poderia ser as Dolomitas?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aquecendo-me um pouco ao sol tendo o Aconcágua ao fundo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Silvina e Daniel. Está tudo bem, é claro.

          

 

 

 

 

 

 

Numa rua qualquer em Valparaíso.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Marcos, Daniel e Graciela no museu Pablo Neruda

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Transito pesado de turistas em Viña del Mar

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fila de 6 horas (para os automóveis) antes de se chegar à fronteira com o Chile.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Confabulando: furamos a fila ou não? O GPS marca 3106 metros de altitude, estamos cansados, a temperatura despencando, perto de zero graus, com o para-brisas chamuscado de mosquitos. Alguma dúvida?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Furamos a fila.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Da Casa de Neruda avista-se boa parte da cidade. Ao fundo, a marinha chilena a postos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em Viña, curtindo mais um final de dia no terraço com vista para o Pacífico.
          

 

 

 

 

 

 

Relaxando no terraço entre uma saída e outra.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Antes de chegarmos à pré-Cordilheira, muito cultivo de uva no lado argentino.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O que o Johnny Depp faz aqui em Viña? Ou não será ele? 

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