Zélia Cardoso de Mello

 

Cinco perguntas para… Zélia Cardoso de Mello, ex-ministra da Fazenda durante o governo Collor

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ela já foi a mulher mais poderosa do Brasil – e a primeira da história a ocupar um cargo de primeiro escalão no governo federal. Como superministra do Governo Collor, Zélia Cardoso de Mello acumulou prestígio e influência na mesma proporção que arrebatou a antipatia do povo brasileiro depois de divulgar um conjunto de reformas de estabilização da economia que, da noite para o dia, confiscou todos os ativos financeiros do país, inclusive contas corrente e de poupança. Isso foi em 1990 e hoje, quase 22 anos depois, Zélia consegue falar sobre esse episódio com naturalidade, sem contudo esconder a decepção por ser lembrada apenas pelos aspectos ruins do plano. “É claro que sinto-me frustrada”, afirmou a ex-ministra, ressaltando que o pacote de medidas teve pontos positivos, como a abertura econômica e a eliminação da reserva de mercado para alguns setores da informática, por exemplo. Zélia vive em Nova York, com os dois filhos, e trabalha na área de consultoria a investidores estrangeiros. Em recente visita à Flórida, quando fez uma palestra em evento do Brazilian Business Group (BBG), ela falou ao blog.

1- Incomoda o fato de a senhora ser lembrada, principalmente, pelo fracasso do Plano Collor?
É claro que sinto-me frustrada, mas hoje eu já lido melhor com tudo isso. Antes tentava explicar a todo o momento que o Plano Brasil Novo não se resumiu ao que chamam de confisco, mas não sinto mais essa necessidade, até porque tenho a convicção de que algumas medidas foram altamente positivas para o país. Cito como exemplo a abertura da economia e o fim da reserva de mercado na área de informática.

2- Se fosse possível voltar no tempo, faria algo diferente?
Se eu soubesse naquela época o que eu sei hoje, provavelmente tomaria algumas decisões de forma diferente. Mas quem também não faria o mesmo em relação à própria vida? Especificamente sobre o plano, a equipe econômica da época debateu exaustivamente todas as medidas e havia um consenso de que algo realmente de impacto precisava ser feito. Vale lembrar que vivíamos uma época de hiperinflação, que quase atingiu os três dígitos por mês. Em suma, tenho orgulho de fazer parte de um momento histórico do país.

3- Aceitaria um eventual convite para voltar a um cargo no governo, qualquer governo?
Provavelmente não. Estou feliz com a minha vida e com o meu trabalho. Mas arrisco a dizer que ser ministro da Fazenda hoje em dia é mais fácil do que na minha época. Quando ocupei o cargo havia uma inflação superior a 80% ao mês, um déficit fiscal absurdo. O sucesso econômico do atual governo é reflexo de uma sucessão de planos, desde o Cruzado, passando pelo Brasil Novo, até o Real. Todos tiveram sua importância e, por isso, me considero parte desse processo. Mesmo assim, um retorno à vida pública não me atrai.

4- Qual a sua rotina em Nova York?
Sou sócia de uma empresa de consultoria que presta serviços a investidores estrangeiros dispostos a abraçar oportunidades no Brasil, em especial no setor imobiliário comercial. Desde que me mudei para os Estados Unidos, estou ligada à área econômica, com exceção de um período em que me dediquei exclusivamente aos filhos, que continuam a ser minha prioridade. Durante o batente, deixava claro que tinha que voltar para a casa por volta de 4pm, para iniciar a jornada de mãe. Atualmente tenho trabalhado muito de casa, mas os filhos já estão crescidos: o mais velho está no primeiro ano da Universidade da Pensilvânia e a caçula começa em agosto.

5- O tema de sua palestra aqui na Flórida foi ‘Perspectivas da Economia Mundial’. Qual o panorama econômico hoje, no Brasil e no mundo?
2011 foi um ano difícil, com os problemas na zona do Euro, as crises no Oriente Médio e o impasse no Congresso norte-americano. As projeções para este ano não são das melhores, mas os indicativos surpreendentemente vieram positivos neste primeiro mês de 2012, em particular nos Estados Unidos e no mercado acionário. Por isso, costumo pregar o otimismo cauteloso. A maior preocupação é com a China. Quanto ao Brasil, está bem na foto, como dizem: não há crise, a presidente tem o Congresso sob controle e, como boa administradora, tem agido bem para evitar impactos maiores vindos do exterior. A grande questão no nosso país é a falta de visão a longo prazo, que prejudica aspectos fundamentais, como infraestrutura, educação e competitividade, entre outros. Mas de um modo geral o Brasil está muito bem. 

2 Responses to “Zélia Cardoso de Mello”

  1. Parabéns, Zélia, pela sua postura sincera diante de fatos de nossa história mais recente  que, como você mesma salienta, trouxeram frutos positivos apesar da dor causada ao povo brasileiro.
    Parabéns a vocês também, Wesley e Neusa, pela excelente entrevista e alta qualidade do Brasil Mais!
    Abraços a todos vocês!
    Silviane

     
  2. Boas perguntas.
    Respostas ídem, principalmente aquela que acusa o Brasil de "falta de visão a longo prazo".
    A Sra. Zélia parece ter sido usada por um governo que não teve o cuidado de pensar nas consequências desastrosas do confisco. 
    Acho que todos nesse mundo merecem uma segunda chance. 

     

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